O Bazenga, futuro cunhado, também colaborou com o destino. Louco por dinheiro, chegou mesmo a dormir na rua quando partiu à “descoberta” do Brasil. Claro está que teve de regressar à Madeira assim que o frio carioca lhe começou a roer os ossos nos bancos de jardim e o dinheiro já não lhe chegava sequer para os jornais que lhe fariam a cama de lavado.
Ao ler nos classificados de um jornal madeirense – Casal de professores precisa-se para leccionar em Moçambique, na cidade da Beira – Ora! Para o Bazenga não se fez tarde e logo respondeu como se casado fosse.
A “vítima” viria a ser a minha tia-avó Alda, com quem ele namorava há alguns anos, sem adiantar o noivado. Desencalhou assim o que de outro modo, digo eu, ficaria adiado – o casamento. É no dia em que o Bazenga recebe a confirmação de que o lugar é dele, que decide pedir a tia Alda em casamento, pois fazia parte do contrato a entrega da certidão do mesmo. O meu bisavô que, por detrás daqueles enormes e hirtos bigodes, não era nada fácil no que respeitava às filhas, acabou por concordar mas com uma condição...!. Condição essa que viria a ser servida como anedota de salão, em quentes serões de histórias. E o digníssimo professor Manuel Silva diria
- Pois que seja - Podem casar-se! - mas só partilharão o mesmo quarto no dia que embarcarem!” - adiando-lhes assim a noite de núpcias e a lua-de-mel que acabaria por acontecer meses depois, a bordo do velho paquete Beira, numa longa viagem de quarenta dias com paragem em todos os portos do caminho para “atestar” de carvão.
Paquete Moçambique 1912-1939, à semelhança do Beira do qual não existem imagens disponíveis
Quando o casal chegou finalmente às “águas” do porto da Beira ainda teve de aguardar pela vez no transbordo de passageiros, em lancha, entre o paquete e o cais.
Quando o casal chegou finalmente às “águas” do porto da Beira ainda teve de aguardar pela vez no transbordo de passageiros, em lancha, entre o paquete e o cais.
Parecia interminável a chegada a terra firme mas assim que o fazem sentem o caloroso acolhimento daquela cidade cosmopolita - a Beira - que desde cedo se caracterizou por uma especialíssima variedade e riqueza humanas.
Ao entardecer naquela simpática cidade as comunidades juntavam-se à beira mar, para se distraírem e refrescarem a ver chegar os barcos e desembarcarem compatriotas de todos os pontos do planeta.
Juntavam-se no cais toda a diversidade de raças e culturas, unidas pela mesma vontade e o mesmo “linguajar” e o casal que agora chegava vinha contribuir para reforçar laços de amizade através do ensino da língua que uniria, ainda mais, as gerações futuras.
Em entrevista dada no Diário de Moçambique de 17 de Setembro de 1968, 40 anos depois, quando o casal Bazenga se deslocou à Beira em visita de saudade, diria o meu tio-avô: - “Saí esta madrugada de Lisboa e já aqui estou!” Os Bazengas com o meu pai (de perfil) e outro sobrinho na redacção do jornal Diário de Moçambique, na Beira, onde foi feita a entrevista publicada. Página do jornal da Beira – Diário de Moçambique, de 17 de Setembro de 1968
A inauguração da nova escola primária Eduardo Vilaça, que estava praticamente pronta, erguida no mesmo sítio onde anteriormente estava a de madeira e zinco, ajudaria a consolidar o objectivo que traziam.


Escola Eduardo Vilaça – antes de ter o muro e ainda com as linhas-férreas na rua de terra batida. As árvores são ainda muito “jovens” vão ficar por trás de um muro ver foto seguinte. www.xiconhoca.com

Escola Eduardo Vilaça – Já com a rua cimentada, passeio para peões e o muro a indicar a existência de trânsito automóvel. As árvores ultrapassam agora o telhado. Arquivo fotográfico da Companhia de Moçambique – Torre do Tombo
Escola Eduardo Vilaça – Já com a rua cimentada, passeio para peões e o muro a indicar a existência de trânsito automóvel. As árvores ultrapassam agora o telhado. Arquivo fotográfico da Companhia de Moçambique – Torre do Tombo
Mais de meio século depois esta escola teria um novo reajuste no tempo, desta vez só mudaria o apelido - escola primária Eduardo Mondlane. É caso para dizer que com a descolonização se poupou no "Eduardo". Mas comparem os troncos das árvores agora com quase 90 anos, as mesmas que o avô João viu plantar! e já agora que fizeram ao telhado? http://beiralisboacoimbra.blogspot.com/
Conheceram o construtor e responsável pelo projecto, o meu avô João, que mais tarde lhes faria o projecto da moradia particular, a Vila Alda, onde iriam viver até ao regresso definitivo a Lisboa em 1928.
Vila Alda – primeiro projecto do avô para a casa da tia Alda Bazenga. No canto superior esquerdo pode ler-se, com a letra do avô, parte do nome do futuro proprietário – Evangelista Gomes Bazenga (futuro cunhado também)
Conforme o que ficara previamente combinado, com o casal de professores, as irmãs Alice e Isaura juntam-se-lhes no fim do curso no ano seguinte, exactamente a 8 de Janeiro de 1920.
Frente e verso do postal referido na fig. 40 – cedido pelo actual proprietário, João Loureiro. Publicado na página 6 da obra “Postais Antigos de Macau” - Primeira edição de 1995 patrocinada pela Fundação Macau – colecção de João M. Loureiro que conta actualmente com mais de treze obras publicadas. Na Introdução que apresenta o postal escreve “ ... que me foi dado, há pouco mais de dois anos em Macau, pela minha prima Maria João (euzinha), que o recebera ainda em Moçambique das mãos da nossa querida Avó – Alice Carmo - se não foram, naturalmente, o ponto de partida de uma colecção que ultrapassa já os 6000 exemplares, constituem ainda as suas mais relevantes e valiosas referências.” Aqui a avó ainda assina Alice Silva
E assim se reunem na Beira a Alda, a Alice e a Isaura.
À Merita, a mais nova das quatro irmãs, o destino reservou a mais terrível das sortes. Casou com um alegre e atencioso "bon vivant" arrependido das folias mas não suficientemente honesto e informado para proteger a mulher com quem casara de contrair a sífilis e morrer sem criar a filha.
Mais uma vez o meu bisavô, ainda que destroçado, fez-se valer da sua autoridade e de alguma perícia e mandou que lhe tirassem a filha, a Daniela, e a escondessem do pai até a fazer embarcar com as tias Alice e Isaura, numa altura em que estavam em gozo de licença no Funchal.
A pequena Daniela seria, na Beira e na vida, a fiel representante da única irmã que não se lhes pudera juntar.
A tia Isaura, uma pessoa muito especial, pouco ou nada se importou de ser apelidada de mãe solteira, e criou a Daniela, sobrinha e afilhada, como se dela fosse.
É assim que, naquela quente e pacata mas muito alegre cidade e com a Daniela para criar, a tia Isaura conhece o Quintino nas tardes do Grémio.
O enamorado jovem logo se dispõe a oferecer à pequena órfã os melhores colégios na Suíça e à Isaura casamento. Casam-se já o meu pai era rapazote e, sabe-se lá porquê, a Daniela continua mais tarde os estudos na “Suíça madeirense" onde tira o mesmo curso das tias, professora primária.
O Quintino era um sujeito muito “bem”, digníssimo funcionário da Caixa de Emissão onde era secretário-tesoureiro, sempre engomado, lavado e dono de outras tantas manias que faziam as delícias do meu pai e das irmãs quando ia a casa da minha avó para lhes namorar a tia. Eu própria me lembro dele dono de umas enormes orelhas e mãos, impecavelmente esfregadas, bengala aprumada com incrustações de prata e marfim, fato bem vincado e camisas imaculadamente brancas com papillon e suspensórios. O que eu não sabia, antes de mo contar a minha tia, era que ele usava avental maçon igualmente engomado e de brancura resplandecente, eles tinham-no visto! (ao avental com o triângulo e o compasso, o pedreiro e o arquitecto, sem lugar para Deus) mas, como crianças que eram, tiveram de jurar segredo. Ele era todo segredo e secretos mas seria bom marido pois a morte leva o casal, já muito velhos, um atrás do outro. A tia Isaura e ele tinham aprendido a viver um do outro e assim se foram também, um após o outro, sem resistência.
Com a chegada das jovens professoras as tardes na Beira passam a ser bem mais animadas para o avô João. Tornara-se amigo do casal Bazenga e iria poder finalmente ter, para as reuniões dançantes do Grémio em frente à Catedral, a companhia da jovem e alegre cunhada Isaura.
O meu avô é o 3º a contar da esquerda e a Isaura a 2ª na mesma ordem...com umas "atrevidas" mangas curtas e uma grande flor ao peito ..."projecto" da minha avó em tecido chiffon (?) cor-de-rosa.
Deliciava-se depois, repondo as calorias perdidas, com o doce de goiaba e outros nutritivos mimos da Alice que preferia ficar em casa a prepará-los para deleite do Carmo (assim lho apresentaram e assim o tratou toda a vida).
É com este homem maravilhoso que a Alice, sem se aperceber, vai sendo feliz. Ela que nos achava seres submissos e sem direitos e que contrariava e condenava a sociedade que estava programada para ser favorável apenas aos homens irritava-se com as atitudes do meu avô Falcão, verdadeiro macho latino, e entre golinhos de chá ia dizendo à minha avó materna:
- Sr.ª D. Joaquina fazia-lhe bem andar a pé. Parece impossível “agachar-se” assim à vontade do seu marido. Ora o Sr. Falcão! Parece impossível! Havia de ser comigo! Nunca o Carmo me proibiu de fazer o que quer que fosse! – e dava uma alegre gargalhada só de imaginar o “senhor liberal” transformado num tirano.
O meu avô Falcão era um homem dificil, o "tirano" da familia, mas tinha uma razão para ser assim. O avô Carmo era o oposto, segundo me garantem o meu pai e as irmãs, era uma pessoa que não pertencia à época.
O meu avô Carmo morre, em 1949, em Lisboa na rua Tenente Ferreira Durão, n.º 1 Campo d´Ourique. Não houve tecnologias nem engenhos que lhe valessem e só mesmo muita dedicação e entrega da Alice lhe prolongariam a vida e diminuiriam o sofrimento. O meu pai contou-me que nessa altura só tinha uma muda de roupa e um par de sapatos que de tão gastos, por amor ao pai, se "adivinhava" apenas a existência das solas, por dentro eram forrados com jornal para evitar que os pés sentissem o chão frio ou se molhassem ao tocá-lo. De noite a camisa era lavada e posta a secar e quando estava quase seca era posta debaixo do colchão, meticulosamente dobrada, para ficar logo “passada a ferro”, o mesmo se passava com as calças que enquanto a avó cozia ia dizendo "remenda o teu pano que te chega ao ano...toca a remendar que te torna a chegar. Foi o primeiro provérbio que me ensinaram.
Mas apesar das dificuldades da época e dos “apertos” da doença e dos finais da guerra, o meu avô teve sempre morfina, o milagroso veneno que lhe esqueceria as dores do fim.
Acabados os "fins" das minhas ternas referências, destes "heróis da terra", regressarei ao princípio. O princípio destes amados caminhantes que sentados nas nuvens pacientemente aguardam os próximos capítulos.
Construiu as casas mais lindas da Ponta Gea, viveu rodeado de verde e muito espaço, amou, sonhou, dançou e acabou confinado ao espaço entre o quarto acanhado e uma varanda, esta na rua Tenente Ferreira Durão em Campo de Ourique, morre 3 dias depois desta foto ter sido tirada no dia 13 de Julho de 1949.











2 comentários:
Falcãozinho,
Como já te disse, as palavras vão-se envergonhando..............
...não "sabem" o que dizer...
(a história da tua família parece saída de um livro do Gabriel Garcia Marques...)
Coincido con mi gran amiga Ankh (que a propósito hace mucho que no la vemos actualizar sus blogs buaaaaaaaaaaa), tus historias parecen salidas de la pluma de García Márquez y conste que no sólo lo digo yo, sino también la Secre que lo adora!!
Falcao, escribe un libro, yo me ofrezco ser tu representante.
Bendiciones pidiendo autógrafos
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