O meu pai chegou a casa estacionou o carro, sem dificuldade de espaço em frente ao portão, um privilégio dos anos 60, e preparou-se para ir almoçar. A minha mãe, enorme e já no fim da gravidez, tinha consulta nesse dia. O médico estava preocupado com o bebé que se preparava para nascer, parecia ser grande … e não se enganou.
- Estás pronta Bel?
- Estás pronta Bel?
- Sim Raul vai andando para o carro que já lá vou ter.
Tinham acabado de almoçar na mesa da varanda interior com “vista” para o quintal.
Ainda era tudo "meu" ... o quintal, o triciclo e o boneco Pinóquio!
A casa era habilidosamente construída entre varandas para ser mais fresca com a ajuda das magníficas ventoinhas de tecto. As arcadas, que emolduravam a varanda hexagonal, antecipavam a entrada para a sala protegida por quatro conjuntos de portadas envidraçadas.

A varanda hexagonal e as portas da sala, ao fundo a minha mãe e o meu irmão, em 1954, que acabavam de chegar a Moçambique.
Na varanda hexagonal, virada para o jardim, onde cresciam os crotons, palmeiras e fetos crescia também, macia e frondosa, a goiabeira.
A varanda hexagonal...e a goiabeira por trás de nós em 1963
Os crotons e nós
A outra varanda, em “L”, albergava ainda o estirador que o avô João desenhara para ele mas que agora de tão grande que era, servia para a avó, já reformada, sentar em volta os meninos que precisavam de aprender a ler e a contar. Esta varanda era virada para o quintal e as arcadas deste lado eram agora protegidas por redes finíssimas, que evitavam a entrada de moscas e mosquitos verdadeiras pragas na época das chuvas.
Encostados às redes, sonolentos mas curiosos e como quem espreita, apoiavam-se os ramos da mangueira, da bananeira e das papaieiras aumentando a sombra e a frescura. Eram vigorosos os troncos destes velhos “habitantes” da casa, plantados em 1921, e já tinham ajudado a crescer o meu pai e tias num tempo em que as arcadas eram totalmente abertas, sem janelas nem redes, num tempo em que eles ainda dormiam com dossel.
Aguardavam agora que eu nascesse, o elemento mais novo da já grande família Carmo, o verde, o fresco e a fruta, e nascia comigo, amorosamente ao lado da bananeira, o filho de um caroço de pitanga trazida da Madeira.
Aguardavam agora que eu nascesse, o elemento mais novo da já grande família Carmo, o verde, o fresco e a fruta, e nascia comigo, amorosamente ao lado da bananeira, o filho de um caroço de pitanga trazida da Madeira.
A minha pitangueira foi o mais brilhante arbusto que conheci e quando em Dezembro o sol lhe tocava de frente ele mostrava-me nas folhas o branco espelhado dos flocos de neve, que eu nunca vira mas que assim adivinhava, e vaidoso enfeitava-se com umas grandes cerejas gomadas de um vermelho quase negro. Viria a ser a minha árvore de Natal favorita pois florescia e dava fruto sempre em Dezembro em vésperas.
O meu irmão e a prima Milú esperavam nervosos, na varanda da frente, pelo montar da tenda do circo que acabara de chegar à cidade e que ficava, invariavelmente, em frente à nossa casa, num terreno que parecia reservado para o efeito, mas que estava apenas vazio de construção.
O pai entrou no carro abriu as janelas para aliviar do calor acumulado durante as horas de almoço, ligou a ignição e pressionou a embraiagem.............? Ouviu um ruído estranho no motor. Sempre exageradamente cuidadoso com os carros e atento aos mais pequenos ruídos e com alguns conhecimentos de mecânica, adquiridos à força da paixão por recuperar carros antigos, insistia em identificá-lo carregando no pedal. Ele que coleccionava e exibia as taças que ia conquistando em rallys onde participava e que conhecia os carros por dentro e por fora não identificava aquele farfalhar.

O B119 recuperado totalmente pelo pai

As taças e o pai
- Isabel, pediu à minha mãe que entretanto chegara, senta-te aí ao volante e carrega no acelerador quando eu disser ………Abriu o capot espreitou e...
- CARREGA AGORA!
- Mio...mio...mio
- É um gato BEL ANDA VER!
Toda preta de olhos verdes, foi sempre a morena mais linda do bairro! Era a minha gata Mercedes, herdou o nome da marca do carro "batizou-a" o meu pai.
E como era já anunciado pela volumosa barriga e dificuldade em andar da minha mãe, nasci nesse dia. Já não tiveram tempo de sair para a consulta, rebentaram as águas, começaram as contracções e mandaram chamar a D. Ilca, a parteira de “avença”, que me fez nascer na mesma casa e no mesmo quarto onde nasceram o meu pai e as irmãs 30 décadas antes.
No dia em que o circo anunciava alegria e nova vida à cidade, e a Mercedes era descoberta, eu decidira acrescentar-me à família.
A minha avó andava de um lado para o outro, nervosíssima, a D. Ilca já não sabia o que fazer, a minha mãe perdia sangue e tempo...mas o meu pai... o meu pai, alheio à gravidade do problema e com alma de realizador de cinema filmava tudo, com a sua preciosa Eumig de 8 mm, sempre que a ocasião fosse digna de registo, festa ou desgraça, com ou sem aprovação dos intervenientes.
Por fim tudo se acalmou e a parteira, amiga de longa data a quem eu chamava “cegonha” antes de perceber porquê, fez a minha mãe prometer-lhe que não teria mais filhos e escolheram-me o nome. Desta vez, e como por sorte não nasci no carro, decidiram homenagear o meu avô João. Acalmou-se a avó e, apesar de eu ser rapariga, não houve reclamações nem esforço de conquista. A minha avó tinha um certo desprezo pela condição feminina mas comigo foi amor à primeira vista...assim como eu com a pitangeira.

A avó e eu a chegarmos a casa...sempre juntas...cumplices e de passo "acertado"... eu fazia questão! Passo acelerado, vigoroso e certo fosse qual fosse a direcção.

Este canto do jardim emoldurava a janela do quarto da avó só com violetas roxas e que tinham um função. Sempre que o passeio era comigo a avó dizia: - Chiquinha vai colher um ramo de violetas...que os teus dedinhos não as magoam e eu já sabia que não era para "arrancar" mas sim para as "cortar" com as unhas fora isso nunca apanhava flores para não separar os filhos das mães. Mas quando era altura de podar a casa enchia-se de jarras era a festa do verde a entrar. Os galhinhos que rebentavam voltavam a ser postos na terra, tinham criado raízes e dizia a avó quem cria raízes é porque quer ficar...e ficavam.
A avó pintada por mim com um raminho de violetas no decote, pó de arroz....e asas
A minha mãe recuperou tão bem do susto e da anemia que se sucedeu que ninguém percebeu que tinha diabetes e eu consequentemente era um bebé de robustos 4.800 kg que teria partido o bico à cegonha!
Acabada de nascer e alheia ao que me rodeava não me importei com o que de mim achavam o meu irmão e a minha prima Milú, enquanto aguardavam autorização, para fazerem a "tão arriscada" travessia de rua deserta de carros. Ansiosos pela ordem para irem dar palha aos elefantes do circo iam matando a espera enquanto riam e comentavam:
- Tão feia que ela é......... não achas........... – e ria-se o meu travesso irmão, com cinco anos, com a prima de sete que ao concordar ainda acrescentava divertida.
- Parece um macaco do circo! Tem tanto cabelo e tão preto! - era assim que de mim falavam quando, azar deles, o meu pai ao passar lhes ouviu os comentários.
Apesar das tentativas frustradas que fizeram para o convencer de que falavam da Mercedes a gracinha adiou-lhes a visita ao outro lado da rua. E assim mesmo a contragosto e parecendo um macaco comecei a conquistar o meu lugar e hoje ocupo-lhes, no coração, uma vasta área... Eu sei!
Como durante o complicado processo de eu chegar ao mundo a minha avó Alice se convenceu que ainda haveria de ser ela a criar-me acabou por fazê-lo e tive duas mães.
Enquanto recuperávamos no quarto já a casa se ia enchendo alegremente com os pais e os três irmãos e sobrinhos da minha mãe, amigos e os muitos primos paternos que vinham ver a “linda” bebé que “nem parecia recém-nascida”….Pois pudera!
A minha avó ia recebendo as visitas já com a boa disposição que lhe era habitual e com, os seus deliciosos e ainda mornos, bolos e biscoitos confeccionados com os ovos da nossa capoeira para “distrair” a longa “hora” de eu nascer.
Que saudades das compotas de frutos colhidos no quintal! Os doces de papaia verde ralada e pitanga e a goiabada, que havia sempre na despensa, também lá estavam para me receberem e estariam sempre até os poder comer trincados no pão.
Descalço, por opção, o Manuel, naquele tão usual contraste da farda branca sobre a brilhante pele negra, que o momento requeria, orgulhosamente servia licor de maracujá e outras bebidas mais frescas que equilibrava com graça e destreza na bandeja “engalanada” com um dos muitos panos de tabuleiro bordados pela avó em dias mais calmos.
E "por entre as gentes" rodopiando com a máquina de filmar, continuava o meu pai a fazer os deliciosos registos que animariam outros serões.
- Manuel, ajuda o patrão a tirar o quadro grande da parede e chama os meninos! Logo vinha o "eco" de seguida:
- Menina vamos ver os filme! Patrão já está com máquina na sala! - sussurrava alvoraçado pois as palavras eram mágicas também para ele e pegava-me ao colo em corrida para me escolher o melhor lugar.
Para mim era dia de tragar a sopa sem protestos e de me sentar no chão da sala, de tábua corrida a cheirar a cera fresquinha, sem que ralhassem comigo por estar no chão. É que os adultos dos anos sessenta baralhavam qualquer infantil certeza o que nos levava a fazer o que mandavam! Umas vezes podia estar no chão, como agora, outras vezes não podia. Havia que aproveitar o momento - E sentava-me!
O “realizador” apanhava-nos nas alturas mais incríveis e, ora a rir ora a reclamar com o pai, o serão era a versão caseira do Cinema Paradiso de Giuseppe Tomatore.
- Ó tio! Tire essa parte! – choramingava a Milú - era a cena em que ela ainda muito pequena, depois de se enrolar na areia à beira da praia a fugir das ondas, humilhantemente retirava a areia do fato de banho.
- Raul! Estou tão mal aí que mania que tens de filmar tudo e todos. – era agora a vez do protesto da minha mãe, muito vaidosa desde sempre, que não perdoava ao pai surpreendê-la em ângulos menos favoráveis.
A única que nunca protestava era a minha avó materna, Joaquina, diabética assumida, mas não rendida, que tentava dentro e fora da “tela” nunca vir a ser descoberta nas suas várias e dissimuladas visitas às sobremesas. Mas era! E o que nós nos ríamos! O meu pai adorava os sogros e para a atrapalhar parava o filme, acendia a luz e dizia:
- Onde está a Ti Jaquina? Ainda agora a vi com uma tacinha na mão….estava bom o docinho? – e em resposta ao nossos protestos, por ter parado a "fita", resmungava o pai que um dia ainda lhe havíamos de agradecer todas as cenas que o precioso celulóide guardava. E recomeçava!
O "cinema" na minha casa ainda era mudo, à parte os protestos - alguns mais divertidos que outros -, o borbulhar do motor era o único som que a máquina de projectar nos conseguia devolver. De vez em quando a fita queimava e tinha que se acender a luz para o pai poder rápida mas cuidadosamente colar as tiras rendilhadas de celulóide mas não sem antes colocar os divertidos cartões, previamente pintados por ele, que anunciavam curtos mas coloridos intervalos.
O Manel permanecia de pé, mãos cruzadas nas costas, e de olhos atentos ao mais pequeno desejo ou necessidade que, de algum de nós, pudesse antever. De vez em quando eu procurava-o com os olhos e adivinhava-o nas sombras pelo brilho do feixe de luz da máquina reflectido no sorriso, de uma brancura resplandecente, que ele com atento carinho me devolvia e parecia dizer “vou estar sempre aqui!”. E está! Ele está sempre aqui!

O Manel sempre a sorrir
Quantas vezes, abandonei o cheiroso e gostoso “chão de cinema”, para o “descer” até mim e, aproveitando o escuro e a distracção dos demais espectadores, lhe dar um beijo abraçado.



1 comentário:
Sem fôlego....
... e quanto mais "conheço" mais curiosidade tenho...
Deixa-me dizer que me delicio com os teus contos, na maneira como os contas... os pormenores, as fotografias, os saltos temporais... ricos e deliciosos! E quanta riqueza humana numa só história (a da tua família...) - os dias, a realidade, os sonhos, os segredos, as forças e as fragilidades...
p.s - A vossa fotografia a caminhar de passo acertado é única!
BEIJO ENORME!!!!!!!
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