domingo, 22 de março de 2009

Na Terra da Boa Gente

Ao chegar a casa já estava a mesa posta. Vinha cansado e cheio de calor mas esperava-o o aconchego do lar.
Na parte de trás da casa varria o quintal, com um maço de gravetos amarrado, uma negra escultural. Descalça e parcialmente embrulhada numa capulana de cores vivas saúda-o com um sorriso branco e inteiro, larga a vassoura, bate os pés no tapete e entra para ultimar o almoço.


Imagens tiradas da net para entre as vassouras, a galinha, a beleza e as cores da capulana poderem idealizar a que não foi a minha avó.
Enquanto ela não pousa a travessa de esmalte sobre a mesa, que há-de presenteá-lo de novo com frango à cafreal, recosta o pensamento no cadeirão de verga e voa no tempo.
Revoltavam-se as guarnições dos cruzadores D. Carlos e Vasco da Gama e quando o novo presidente do ministério, João Franco, entra a governar em ditadura com reforço dos poderes do Juiz de Instrução Criminal, a contestação republicana crescia de tom.

O seu destino tinha sido traçado na pena do rei que por “decreto” lhe destinara o “frango à cafreal”.

A longa espera avolumada pela troca de correspondência entre os signatários e a Secretaria-geral na qual uma delas, datada de 24 de Novembro de 1906, o Ministro da Marinha e Ultramar informava que o Governo de Sua majestade estaria disposto a fazer a concessão de um caminho-de-ferro eléctrico de Lourenço Marques para Inhambane coincidira com o nascimento das gémeas, a Helena e a Cristina.
Enquanto o Governo se acautelava contra a febre das concessões, na origem de muitos males, para satisfazer os naturais anseios da população de Inhambane, informava a Câmara municipal de que se iriam iniciar os estudos do caminho-de-ferro ligando Inhambane a Inharrime.
E ia crescendo o tempo em seu benefício.

É a força do dinheiro de alguns colonos, que empregavam nas suas plantações avultados capitais, que dá impulso à construção de um caminho-de-ferro, cuja falta se ia fazendo sentir cada vez mais.

A construção deste Caminho de Ferro tinha sido já pensamento de Mouzinho de Albuquerque quando Comissário Régio que magoado, por não ter podido realizar este empreendimento, deixa a seu pedido, em Julho de 1898, o Governo da Província de Moçambique.
A construção do caminho de Ferro de Inhambane caiu por terra uma quantidade de vezes parecia aguardar a sua chegada a África e total disponibilidade o que só aconteceria depois de largar as obras da Ponte-Cais do Gorjão em Lourenço Marques em 1913.
Construção da Ponte-Cais do Gorjão. Foto do album de familia e a mesma foto do álbum nº 10 tirado de


Se o arranque inicial para a execução da obra não tivesse sido dado por ordem ministerial em 1909, ao tempo do Governador geral Freire de Andrade, que não perdeu tempo em promover a primeira remessa de material ferroviário para Inhambane e em 1910 publicada a portaria que estabelecia as normas de construção e exploração da via e criava a comissão administrativa do caminho de Ferro de Inhambane estaria ainda em Lourenço Marques.
Terminaram assim com o novo governador as cargas e descargas na cabeça do preto e por meio de lanchas.
Até o regicídio que acelerara os preparativos para a revolução republicana e reacendera a questão religiosa parecia ter sido obra do destino a seu favor.

Imagem da net
Pouco tempo depois da República ter sido proclamada houve mudanças dos comandos governativos e é com José Cabral, nomeado governador do distrito de Inhambane, que se interessa a fundo por esse caminho-de-ferro e que apresenta em 1911 um relatório em que exprime toda a conveniência na construção do troço Mutamba/Inhambane e na construção de uma Ponte-Cais, como complemento do caminho-de-ferro que este se põe em marcha e o João também a bordo do vapor imbuído do espírito colonizador, no sentido etimológico da palavra. Tinha deixado primeiro a mulher e a filha, depois o irmão tudo em nome das Obras Públicas para “valorizar, cultivar, fazer render e tornar melhor”.

Já tinha saudades dum bacalhau com todos! Mas era o frango que o chamava.

Arrependeu-se mil vezes de nunca ter aprendido a cozinhar pois aquela negra linda, dedicada e apaixonadamente submissa insistia no que melhor sabia cozinhar.
Comida africana!
Mas tinha uma habilidade de mestre e certamente o faria já sem receita e de boa fé a avaliar pelo imenso trabalho, força e pa(ciência) necessárias para extrair o leite do coco.
Começava pela dificílima tarefa de descamisar o coco do sisal que o envolvia. A parte de fora do fruto era cortada com uma catana e depois à força de braços fortes e muita persistência era tirado o sisal.

Imagens tiradas da net que mostram artisticamente e para quem não sabe a espessura das fibras de sisal e como eram os raladores de coco. Sentada e de mãos em concha a abraçar o coco ele era ralado à força de braços na ponta” estrelada” em aço.
mocambique.homestead.com
A segunda catanada certeira faria abrir a casca dura do coco exactamente pelo meio sem deixar perder a água que de imediato começaria a cair, a deliciosa água de coco.
Finalmente sentada no ralador continuava, à força de braços a paciente e longa tarefa de obter o coco ralado fresco e ao fim de horas de força continuava a receita na sua parte mais feminina e simples – barrando o churrasco com um pincel de penas que levava o tempero à base de piri-piri e coco.
Uma coisa era certa…invariavelmente as galinhas do quintal acabavam cobertas de coco, ou no caril ou assadinhas à cafreal.
João, o seu branco, que ao fim de seis anos de vida em comum ainda discordava dos gostos culinários não via a hora de acabar com tão grande castigo iniciando por isso uma lenta pesquisa de sabores europeus ao assinar revistas femininas que demoravam eternidades a chegar.
E quando chegavam nem ele sabia ensinar nem ela se dispunha a aprender.
Calmo, meigo e paciente, levantava-se do cadeirão, “bicava” o frango enquanto ela apenas o olhava pois não prescindia de almoçar em roda, no chão comum entre quintais, sem garfos nem facas, enquanto aproveitava para saber das últimas da vizinhança.
Não imagino sequer o “Carmo”, biqueiro, como consta que era, aceitar almoçar bolas de farinha amassadas à mão com camarão seco em molho sofisticado feito à base de piripiri, amendoim e óleo de palma. Pudesse eu falar com ele e dir-lhe-ia

– “Experimente que é uma verdadeira delícia avô! Garanto-lhe!”

A primeira vez que provei o tépue fi-lo sentada no chão e à revelia dos meus pais aproveitando-lhes a sesta. Almoçávamos todos juntos, como sempre, mas naquele dia o almoço era péssimo, nem caril!?, nem bifes!? … e fiquei de castigo na mesa.

- Lopes! - dizia o meu pai ao mainato enquanto se levantava a caminho da bendita sesta
– A menina está de castigo e só sai da mesa quando acabar de comer!
- Sim patrão!
- Lopes? – chamei-o baixinho.
- Minina? – respondeu-me com aquela voz de quem se vê impotente para suspender o castigo ou resolver a questão.
- O teu almoço o que é? – continuávamos em sussurro cauteloso mas já com aguçada curiosidade gustativa.
- Tépue de camarão seco….mas xi minina não inventa que patrão zanga-lhe mais. Levantava já o tom a antecipar o que se seguiria.
- Troca comigo então – e com um belo mas sofredor sorriso de 13 anos convenci-o a ser cúmplice de um almoço que eu jamais esqueceria.

No chão do quintal, sentados à sombra, com o barulho do ar condicionado do quarto dos meus pais a indicar que estavam ainda a descansar, deliciei-me e diverti-me com o delicioso manjar servido em pratos de esmalte. Sentados em roda partilhámos os pratos centrais onde estavam num o camarão e o molho e noutro a farinha.



Aprendi a amassar as bolas de farinha sem que se colassem às mãos ensinaram-me que para isso tínhamos de molhar as pontas dos dedos em água nas tacinhas de esmalte individuais.

Este ritual que durante tantos anos escondi do meu pai também ele o sabe de cor … também ele o escondera de mim!
A bola de farinha amassada só vai ao centro uma vez e os dedos não “mergulham” nem na boca nem no molho. Comi com modos de um Régulo para que não deixassem nunca de me convidar.

E era neste amar, desencontrado e mudo, que João se levantava da mesa e depois de escovar os dentes e o bigode lá seguia de novo para perto dos trabalhadores que aguardavam novas ordens, bem mais fáceis de transmitir e conseguir, para finalizarem em tempo o troço que tinham entre mãos.

Fotos do album de familia cedidas pela minha tia paterna Virginia do Carmo A. Loureiro
Contrastando também no trajar, de calças e balalaica de caqui impecavelmente engomadas até poder, punha o chapéu e saía.

Tinha ainda uns quantos meses até cumprir a missão e deixar Inhambane ou não.
Se o novo troço fosse aprovado!
Mas não foi. Apesar de ter sido aberto à exploração definitiva o segundo troço além Manjacaze, a 13 de Maio de 1916, na extensão de 38 quilómetros a grande rede ferroviária do sul nunca se fez.
Foi este o motivo que levou João mais uma vez a deixar para trás mais um pedaço de vida e seguir para a Beira, sózinho, em finais de 1919.

1 comentário:

A. disse...

África... os sons, as cores, os cheiros, as "gentes"... e tudo tão vivo nas tuas palavras, Falcãozinho...

Delicio-me....

(sabes? consigo ver os "caminhantes", lá em cima, recostadinhos a ouvir-te e a reviver tudo...)