Ao longo da vida, a avó e eu, fomo-nos também prometendo coisas, como se trocássemos tesouros, uns chegaram-me às mãos no dia em que ela soube que morria e outros continuam a chegar.
- Raul chega aqui, - pôs as mãos nas orelhas - ajuda-me, ... dá-me ali aquela caixinha.
- Ó mãe deixe-se disso que havemos de ir todos à sua frente dizia o meu pai convencido que tudo ficaria bem, nada fazia prever que a minha avó, que nunca estivera doente e que nunca ia ao médico a não ser quando visitava a grande amiga Dra Zemira, se fosse assim embora naquele dia.
Todos sabíamos o que significava, para a minha avó, “tirar os brincos”. Ela tinha dito milhares de
vezes, nas mais diversas ocasiões, só os tiro para morrer - são para a Chiquinha.
- Não sejas teimoso, que já não me resta muito tempo, - tirou-os – dá-lhos!
- ...mãe...está bem mãe – pouco depois o pai saía com a caixa dos brincos na mão e os olhos rasos de água. – por favor senhora enfermeira .........a minha mãe .... é preciso vesti-la.
Mas já não ia sentir frio naquele Outubro!
Eu estava sentada em frente à janela na salinha do rés-do-chão da casa dos meus sogros quando vejo o meu pai a chegar de carro.
O meu coração deu um salto! O pai a meio da manhã!?Quando o carro parou o meu pai abraçou o volante e quando deixa cair a cabeça nos braços já eu abria a porta.
- Pai? O que aconteceu? A avó?- A avó disse-me que te trouxesse os brincos. - soluçava.
É quando vejo espreitar, na mão esquerda do pai, a tão conhecida caixinha azul … tiro-lha como quem rouba o choro dum homem que sufoca. Ela tinha levado a caixa dos brincos para o hospital!?!
Abri-a … embargou-se-me a voz, apertei na palma da mão os brincos de safiras e senti o balanço do Mundo.
- Vamos pai - foi tudo quanto me ocorreu
Já casada e a caminho do último carinho à avó, agora sofrido, eu reclamava comigo própria a ausência do Chico que não estava.
- O Chico nunca está quando é preciso! Precisava da calma dele mas ele acabava de aceitar um contrato como cooperante numa Empresa de Construções em Luanda.
E fomos os dois, pai e filha, de carro no mais profundo silêncio, nem sei por onde andámos mas pareceu-me uma eternidade. Recordo da viagem apenas o ronronar característico do motor a diesel do carro. O pára-arranca habitual do trânsito entre Linda-a-Velha e Lisboa faziam simultaneamente adiar a dor e eternizar ainda mais a longa saudade que eu já sentia.
Relembro o dia de cada vez que passo em frente ao pequeno muro branco ondulado debruado a tijolo laranja que anuncia a entrada de Campo d’Ourique.
Quando, por fim, parámos estávamos em frente à Igreja do Santo Condestável. Desci a escada sozinha. À esquerda ao fundo, naquela sala enorme, estava a minha avó, deitada com um ar tão sereno como se estivesse no seu bem-amado colchão de palha. Ainda do cimo da escada via-lhe as mãos e sentia-as macias.
As mãos falam-nos do carácter das pessoas e as da minha avó eram lindas e bem construídas de força e saber. Marcadas pelo tempo levavam com elas as mais deliciosas carícias, recordavam-me horas de bordar, podar, ler, escrever e contar, faziam-me chegar o cheiro das tardes de enrolar biscoitos e de segurar todos os pequenos seres que delas precisavam, incluindo eu, e de tão macias e sabedoras que eram nunca aquelas mãos serviram para uma palmada que não fosse de consolo ou aprovação.
Na sala conversava-se em entusiasmado sussurro, como se faz habitualmente nestas forçadas reuniões familiares entre parentes que há muito não se vêem mas quando eu entrei fez-se literalmente “silêncio sepulcral”.
À cabeceira da avó olhavam-me o meu primo João e o meu irmão e de uma sala completamente cheia de gente estas são as únicas figuras que retenho desse momento num triângulo de cor numa fotografia de grupo a sépia.
- Joãozinha! - era o João o meu primo mais velho de quem recebi o abraço que me dava, abandonando-me nele, como se fosse o dela.
- Não a beijes - pediu-me o meu irmão atrasando-me quando eu já me debruçava - é melhor assim.
Abracei-os de novo, um de cada vez e senti-me melhor. Sempre gostei muito dos dois. Fechei os olhos, quentes e dolorosamente secos, mas sentindo-a pairar abri-os de novo para me despedir daquele imenso corpo companheiro e voei com ela. Na memória dos lábios eternizava-se o calor dos últimos beijos.
Trouxe-a comigo!

7 comentários:
p.s- por acaso esqueci-me de uma coisa... (é que depois de ler nem me lembrava...) estás bem gira na fotografia! Mesmo muito!
com 30 anos!!!! obrigada!!!
mas a ideia é mostrar a "passagem" dos brincos....reparaste?
reparei... claro! Mas, também reparei no borracho! hihihihi...
Precioso Falcao. Me encanta leerte, sabes transmitir cada una de las emociones, el de los aretes tiernísimo como todo el relato.
Lo dije algún día, creo -si mal no recuerdo- que tu corazón es del tamaño de la luna, cuando leí aquella historia en la que regalaste aquellos chocolates...
Y si postulamos a un Nóbel? sabes escribir y bonita letra. Dale!! te apoyamos!!!
Un abrazo enorme amiga! Bendiciones maravilladas
Gracias Cardenal, muchas gracias....Bendiciones emocionadas,
Lá foi em espanhol de tortilha!
Este conto é o pai da "Força das minhas asas"... ;)...
Qué lindo!!! fijate cómo vamos aprendiendo más de la gente que queremos. Y ahora voy entendiendo mejor todo.
Más bendiciones... muchas más!!
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