......... quase nada!sexta-feira, 9 de outubro de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
A árvore dos Carmos - Prenda de Natal do ano passado que eu ADOREI!

Fica para a posteridade feita pela mão, agora tremida e com 87 anos, da filha mais velha do meu avô Carmo a minha tia Virginia, que propositadamente escolheu uma palmeira. Escreve ela no canto inferior esquerdo, que aqui mal se vê, "África meu amor" (desenhando um coração em vez da palavra "amor") e aqui fica a homenagem a quem ama assim.
Nós começamos em força no canto inferior direito (mas o "estrago" inicial...o que fizeram o José Affonso e a Theodora da Silva!...num cantinho do mundo...sabe-se lá onde e quando....encheram uma página A3 engraçado mesmo é que por enquanto todos (os vivos) sabemos uns dos outros e a ponte é a minha tia Virginia). Logo por cima da linha superior dos tufos de relva "entra" o João de Lemos Affonso do Carmo.
Credo.............
Tive que voltar....
segunda-feira, 23 de março de 2009
Aqui estou eu a postos....
domingo, 22 de março de 2009
Na Terra da Boa Gente
Ao chegar a casa já estava a mesa posta. Vinha cansado e cheio de calor mas esperava-o o aconchego do lar.
Na parte de trás da casa varria o quintal, com um maço de gravetos amarrado, uma negra escultural. Descalça e parcialmente embrulhada numa capulana de cores vivas saúda-o com um sorriso branco e inteiro, larga a vassoura, bate os pés no tapete e entra para ultimar o almoço.

Imagens tiradas da net para entre as vassouras, a galinha, a beleza e as cores da capulana poderem idealizar a que não foi a minha avó.
Enquanto ela não pousa a travessa de esmalte sobre a mesa, que há-de presenteá-lo de novo com frango à cafreal, recosta o pensamento no cadeirão de verga e voa no tempo.
Revoltavam-se as guarnições dos cruzadores D. Carlos e Vasco da Gama e quando o novo presidente do ministério, João Franco, entra a governar em ditadura com reforço dos poderes do Juiz de Instrução Criminal, a contestação republicana crescia de tom.
O seu destino tinha sido traçado na pena do rei que por “decreto” lhe destinara o “frango à cafreal”.
A longa espera avolumada pela troca de correspondência entre os signatários e a Secretaria-geral na qual uma delas, datada de 24 de Novembro de 1906, o Ministro da Marinha e Ultramar informava que o Governo de Sua majestade estaria disposto a fazer a concessão de um caminho-de-ferro eléctrico de Lourenço Marques para Inhambane coincidira com o nascimento das gémeas, a Helena e a Cristina.
Enquanto o Governo se acautelava contra a febre das concessões, na origem de muitos males, para satisfazer os naturais anseios da população de Inhambane, informava a Câmara municipal de que se iriam iniciar os estudos do caminho-de-ferro ligando Inhambane a Inharrime.
O seu destino tinha sido traçado na pena do rei que por “decreto” lhe destinara o “frango à cafreal”.
A longa espera avolumada pela troca de correspondência entre os signatários e a Secretaria-geral na qual uma delas, datada de 24 de Novembro de 1906, o Ministro da Marinha e Ultramar informava que o Governo de Sua majestade estaria disposto a fazer a concessão de um caminho-de-ferro eléctrico de Lourenço Marques para Inhambane coincidira com o nascimento das gémeas, a Helena e a Cristina.
Enquanto o Governo se acautelava contra a febre das concessões, na origem de muitos males, para satisfazer os naturais anseios da população de Inhambane, informava a Câmara municipal de que se iriam iniciar os estudos do caminho-de-ferro ligando Inhambane a Inharrime.
E ia crescendo o tempo em seu benefício.
É a força do dinheiro de alguns colonos, que empregavam nas suas plantações avultados capitais, que dá impulso à construção de um caminho-de-ferro, cuja falta se ia fazendo sentir cada vez mais.
A construção deste Caminho de Ferro tinha sido já pensamento de Mouzinho de Albuquerque quando Comissário Régio que magoado, por não ter podido realizar este empreendimento, deixa a seu pedido, em Julho de 1898, o Governo da Província de Moçambique.
A construção do caminho de Ferro de Inhambane caiu por terra uma quantidade de vezes parecia aguardar a sua chegada a África e total disponibilidade o que só aconteceria depois de largar as obras da Ponte-Cais do Gorjão em Lourenço Marques em 1913.
A construção do caminho de Ferro de Inhambane caiu por terra uma quantidade de vezes parecia aguardar a sua chegada a África e total disponibilidade o que só aconteceria depois de largar as obras da Ponte-Cais do Gorjão em Lourenço Marques em 1913.
Construção da Ponte-Cais do Gorjão. Foto do album de familia e a mesma foto do álbum nº 10 tirado de
Se o arranque inicial para a execução da obra não tivesse sido dado por ordem ministerial em 1909, ao tempo do Governador geral Freire de Andrade, que não perdeu tempo em promover a primeira remessa de material ferroviário para Inhambane e em 1910 publicada a portaria que estabelecia as normas de construção e exploração da via e criava a comissão administrativa do caminho de Ferro de Inhambane estaria ainda em Lourenço Marques.
Terminaram assim com o novo governador as cargas e descargas na cabeça do preto e por meio de lanchas.
Até o regicídio que acelerara os preparativos para a revolução republicana e reacendera a questão religiosa parecia ter sido obra do destino a seu favor.
Imagem da net
Pouco tempo depois da República ter sido proclamada houve mudanças dos comandos governativos e é com José Cabral, nomeado governador do distrito de Inhambane, que se interessa a fundo por esse caminho-de-ferro e que apresenta em 1911 um relatório em que exprime toda a conveniência na construção do troço Mutamba/Inhambane e na construção de uma Ponte-Cais, como complemento do caminho-de-ferro que este se põe em marcha e o João também a bordo do vapor imbuído do espírito colonizador, no sentido etimológico da palavra. Tinha deixado primeiro a mulher e a filha, depois o irmão tudo em nome das Obras Públicas para “valorizar, cultivar, fazer render e tornar melhor”.
Já tinha saudades dum bacalhau com todos! Mas era o frango que o chamava.
Arrependeu-se mil vezes de nunca ter aprendido a cozinhar pois aquela negra linda, dedicada e apaixonadamente submissa insistia no que melhor sabia cozinhar.
Pouco tempo depois da República ter sido proclamada houve mudanças dos comandos governativos e é com José Cabral, nomeado governador do distrito de Inhambane, que se interessa a fundo por esse caminho-de-ferro e que apresenta em 1911 um relatório em que exprime toda a conveniência na construção do troço Mutamba/Inhambane e na construção de uma Ponte-Cais, como complemento do caminho-de-ferro que este se põe em marcha e o João também a bordo do vapor imbuído do espírito colonizador, no sentido etimológico da palavra. Tinha deixado primeiro a mulher e a filha, depois o irmão tudo em nome das Obras Públicas para “valorizar, cultivar, fazer render e tornar melhor”.
Já tinha saudades dum bacalhau com todos! Mas era o frango que o chamava.
Arrependeu-se mil vezes de nunca ter aprendido a cozinhar pois aquela negra linda, dedicada e apaixonadamente submissa insistia no que melhor sabia cozinhar.
Comida africana!
Mas tinha uma habilidade de mestre e certamente o faria já sem receita e de boa fé a avaliar pelo imenso trabalho, força e pa(ciência) necessárias para extrair o leite do coco.
Começava pela dificílima tarefa de descamisar o coco do sisal que o envolvia. A parte de fora do fruto era cortada com uma catana e depois à força de braços fortes e muita persistência era tirado o sisal.
Mas tinha uma habilidade de mestre e certamente o faria já sem receita e de boa fé a avaliar pelo imenso trabalho, força e pa(ciência) necessárias para extrair o leite do coco.
Começava pela dificílima tarefa de descamisar o coco do sisal que o envolvia. A parte de fora do fruto era cortada com uma catana e depois à força de braços fortes e muita persistência era tirado o sisal.

Imagens tiradas da net que mostram artisticamente e para quem não sabe a espessura das fibras de sisal e como eram os raladores de coco. Sentada e de mãos em concha a abraçar o coco ele era ralado à força de braços na ponta” estrelada” em aço.
mocambique.homestead.com
A segunda catanada certeira faria abrir a casca dura do coco exactamente pelo meio sem deixar perder a água que de imediato começaria a cair, a deliciosa água de coco.
Finalmente sentada no ralador continuava, à força de braços a paciente e longa tarefa de obter o coco ralado fresco e ao fim de horas de força continuava a receita na sua parte mais feminina e simples – barrando o churrasco com um pincel de penas que levava o tempero à base de piri-piri e coco.
Finalmente sentada no ralador continuava, à força de braços a paciente e longa tarefa de obter o coco ralado fresco e ao fim de horas de força continuava a receita na sua parte mais feminina e simples – barrando o churrasco com um pincel de penas que levava o tempero à base de piri-piri e coco.
Uma coisa era certa…invariavelmente as galinhas do quintal acabavam cobertas de coco, ou no caril ou assadinhas à cafreal.
João, o seu branco, que ao fim de seis anos de vida em comum ainda discordava dos gostos culinários não via a hora de acabar com tão grande castigo iniciando por isso uma lenta pesquisa de sabores europeus ao assinar revistas femininas que demoravam eternidades a chegar.
E quando chegavam nem ele sabia ensinar nem ela se dispunha a aprender.
Calmo, meigo e paciente, levantava-se do cadeirão, “bicava” o frango enquanto ela apenas o olhava pois não prescindia de almoçar em roda, no chão comum entre quintais, sem garfos nem facas, enquanto aproveitava para saber das últimas da vizinhança.
Calmo, meigo e paciente, levantava-se do cadeirão, “bicava” o frango enquanto ela apenas o olhava pois não prescindia de almoçar em roda, no chão comum entre quintais, sem garfos nem facas, enquanto aproveitava para saber das últimas da vizinhança.
Não imagino sequer o “Carmo”, biqueiro, como consta que era, aceitar almoçar bolas de farinha amassadas à mão com camarão seco em molho sofisticado feito à base de piripiri, amendoim e óleo de palma. Pudesse eu falar com ele e dir-lhe-ia
– “Experimente que é uma verdadeira delícia avô! Garanto-lhe!”
A primeira vez que provei o tépue fi-lo sentada no chão e à revelia dos meus pais aproveitando-lhes a sesta. Almoçávamos todos juntos, como sempre, mas naquele dia o almoço era péssimo, nem caril!?, nem bifes!? … e fiquei de castigo na mesa.
- Lopes! - dizia o meu pai ao mainato enquanto se levantava a caminho da bendita sesta
– A menina está de castigo e só sai da mesa quando acabar de comer!
- Sim patrão!
- Lopes? – chamei-o baixinho.
- Minina? – respondeu-me com aquela voz de quem se vê impotente para suspender o castigo ou resolver a questão.
- O teu almoço o que é? – continuávamos em sussurro cauteloso mas já com aguçada curiosidade gustativa.
- Tépue de camarão seco….mas xi minina não inventa que patrão zanga-lhe mais. Levantava já o tom a antecipar o que se seguiria.
- Troca comigo então – e com um belo mas sofredor sorriso de 13 anos convenci-o a ser cúmplice de um almoço que eu jamais esqueceria.
No chão do quintal, sentados à sombra, com o barulho do ar condicionado do quarto dos meus pais a indicar que estavam ainda a descansar, deliciei-me e diverti-me com o delicioso manjar servido em pratos de esmalte. Sentados em roda partilhámos os pratos centrais onde estavam num o camarão e o molho e noutro a farinha.
– “Experimente que é uma verdadeira delícia avô! Garanto-lhe!”
A primeira vez que provei o tépue fi-lo sentada no chão e à revelia dos meus pais aproveitando-lhes a sesta. Almoçávamos todos juntos, como sempre, mas naquele dia o almoço era péssimo, nem caril!?, nem bifes!? … e fiquei de castigo na mesa.
- Lopes! - dizia o meu pai ao mainato enquanto se levantava a caminho da bendita sesta
– A menina está de castigo e só sai da mesa quando acabar de comer!
- Sim patrão!
- Lopes? – chamei-o baixinho.
- Minina? – respondeu-me com aquela voz de quem se vê impotente para suspender o castigo ou resolver a questão.
- O teu almoço o que é? – continuávamos em sussurro cauteloso mas já com aguçada curiosidade gustativa.
- Tépue de camarão seco….mas xi minina não inventa que patrão zanga-lhe mais. Levantava já o tom a antecipar o que se seguiria.
- Troca comigo então – e com um belo mas sofredor sorriso de 13 anos convenci-o a ser cúmplice de um almoço que eu jamais esqueceria.
No chão do quintal, sentados à sombra, com o barulho do ar condicionado do quarto dos meus pais a indicar que estavam ainda a descansar, deliciei-me e diverti-me com o delicioso manjar servido em pratos de esmalte. Sentados em roda partilhámos os pratos centrais onde estavam num o camarão e o molho e noutro a farinha.
Aprendi a amassar as bolas de farinha sem que se colassem às mãos ensinaram-me que para isso tínhamos de molhar as pontas dos dedos em água nas tacinhas de esmalte individuais.
Este ritual que durante tantos anos escondi do meu pai também ele o sabe de cor … também ele o escondera de mim!
A bola de farinha amassada só vai ao centro uma vez e os dedos não “mergulham” nem na boca nem no molho. Comi com modos de um Régulo para que não deixassem nunca de me convidar.
E era neste amar, desencontrado e mudo, que João se levantava da mesa e depois de escovar os dentes e o bigode lá seguia de novo para perto dos trabalhadores que aguardavam novas ordens, bem mais fáceis de transmitir e conseguir, para finalizarem em tempo o troço que tinham entre mãos.
Fotos do album de familia cedidas pela minha tia paterna Virginia do Carmo A. Loureiro
Contrastando também no trajar, de calças e balalaica de caqui impecavelmente engomadas até poder, punha o chapéu e saía.
Tinha ainda uns quantos meses até cumprir a missão e deixar Inhambane ou não.
Se o novo troço fosse aprovado!
Mas não foi. Apesar de ter sido aberto à exploração definitiva o segundo troço além Manjacaze, a 13 de Maio de 1916, na extensão de 38 quilómetros a grande rede ferroviária do sul nunca se fez.
Mas não foi. Apesar de ter sido aberto à exploração definitiva o segundo troço além Manjacaze, a 13 de Maio de 1916, na extensão de 38 quilómetros a grande rede ferroviária do sul nunca se fez.
Foi este o motivo que levou João mais uma vez a deixar para trás mais um pedaço de vida e seguir para a Beira, sózinho, em finais de 1919.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Mãe e filho
À falta de papoilas....
terça-feira, 17 de março de 2009
papoila "coração"
domingo, 15 de março de 2009
Precisa-se para leccionar em Moçambique
O Bazenga, futuro cunhado, também colaborou com o destino. Louco por dinheiro, chegou mesmo a dormir na rua quando partiu à “descoberta” do Brasil. Claro está que teve de regressar à Madeira assim que o frio carioca lhe começou a roer os ossos nos bancos de jardim e o dinheiro já não lhe chegava sequer para os jornais que lhe fariam a cama de lavado.
Ao ler nos classificados de um jornal madeirense – Casal de professores precisa-se para leccionar em Moçambique, na cidade da Beira – Ora! Para o Bazenga não se fez tarde e logo respondeu como se casado fosse.
A “vítima” viria a ser a minha tia-avó Alda, com quem ele namorava há alguns anos, sem adiantar o noivado. Desencalhou assim o que de outro modo, digo eu, ficaria adiado – o casamento. É no dia em que o Bazenga recebe a confirmação de que o lugar é dele, que decide pedir a tia Alda em casamento, pois fazia parte do contrato a entrega da certidão do mesmo. O meu bisavô que, por detrás daqueles enormes e hirtos bigodes, não era nada fácil no que respeitava às filhas, acabou por concordar mas com uma condição...!. Condição essa que viria a ser servida como anedota de salão, em quentes serões de histórias. E o digníssimo professor Manuel Silva diria
- Pois que seja - Podem casar-se! - mas só partilharão o mesmo quarto no dia que embarcarem!” - adiando-lhes assim a noite de núpcias e a lua-de-mel que acabaria por acontecer meses depois, a bordo do velho paquete Beira, numa longa viagem de quarenta dias com paragem em todos os portos do caminho para “atestar” de carvão.
Paquete Moçambique 1912-1939, à semelhança do Beira do qual não existem imagens disponíveis
Quando o casal chegou finalmente às “águas” do porto da Beira ainda teve de aguardar pela vez no transbordo de passageiros, em lancha, entre o paquete e o cais.
Quando o casal chegou finalmente às “águas” do porto da Beira ainda teve de aguardar pela vez no transbordo de passageiros, em lancha, entre o paquete e o cais.
Parecia interminável a chegada a terra firme mas assim que o fazem sentem o caloroso acolhimento daquela cidade cosmopolita - a Beira - que desde cedo se caracterizou por uma especialíssima variedade e riqueza humanas.
Ao entardecer naquela simpática cidade as comunidades juntavam-se à beira mar, para se distraírem e refrescarem a ver chegar os barcos e desembarcarem compatriotas de todos os pontos do planeta.
Juntavam-se no cais toda a diversidade de raças e culturas, unidas pela mesma vontade e o mesmo “linguajar” e o casal que agora chegava vinha contribuir para reforçar laços de amizade através do ensino da língua que uniria, ainda mais, as gerações futuras.
Em entrevista dada no Diário de Moçambique de 17 de Setembro de 1968, 40 anos depois, quando o casal Bazenga se deslocou à Beira em visita de saudade, diria o meu tio-avô: - “Saí esta madrugada de Lisboa e já aqui estou!” Os Bazengas com o meu pai (de perfil) e outro sobrinho na redacção do jornal Diário de Moçambique, na Beira, onde foi feita a entrevista publicada. Página do jornal da Beira – Diário de Moçambique, de 17 de Setembro de 1968
A inauguração da nova escola primária Eduardo Vilaça, que estava praticamente pronta, erguida no mesmo sítio onde anteriormente estava a de madeira e zinco, ajudaria a consolidar o objectivo que traziam.


Escola Eduardo Vilaça – antes de ter o muro e ainda com as linhas-férreas na rua de terra batida. As árvores são ainda muito “jovens” vão ficar por trás de um muro ver foto seguinte. www.xiconhoca.com

Escola Eduardo Vilaça – Já com a rua cimentada, passeio para peões e o muro a indicar a existência de trânsito automóvel. As árvores ultrapassam agora o telhado. Arquivo fotográfico da Companhia de Moçambique – Torre do Tombo
Escola Eduardo Vilaça – Já com a rua cimentada, passeio para peões e o muro a indicar a existência de trânsito automóvel. As árvores ultrapassam agora o telhado. Arquivo fotográfico da Companhia de Moçambique – Torre do Tombo
Mais de meio século depois esta escola teria um novo reajuste no tempo, desta vez só mudaria o apelido - escola primária Eduardo Mondlane. É caso para dizer que com a descolonização se poupou no "Eduardo". Mas comparem os troncos das árvores agora com quase 90 anos, as mesmas que o avô João viu plantar! e já agora que fizeram ao telhado? http://beiralisboacoimbra.blogspot.com/
Conheceram o construtor e responsável pelo projecto, o meu avô João, que mais tarde lhes faria o projecto da moradia particular, a Vila Alda, onde iriam viver até ao regresso definitivo a Lisboa em 1928.
Vila Alda – primeiro projecto do avô para a casa da tia Alda Bazenga. No canto superior esquerdo pode ler-se, com a letra do avô, parte do nome do futuro proprietário – Evangelista Gomes Bazenga (futuro cunhado também)
Conforme o que ficara previamente combinado, com o casal de professores, as irmãs Alice e Isaura juntam-se-lhes no fim do curso no ano seguinte, exactamente a 8 de Janeiro de 1920.
Frente e verso do postal referido na fig. 40 – cedido pelo actual proprietário, João Loureiro. Publicado na página 6 da obra “Postais Antigos de Macau” - Primeira edição de 1995 patrocinada pela Fundação Macau – colecção de João M. Loureiro que conta actualmente com mais de treze obras publicadas. Na Introdução que apresenta o postal escreve “ ... que me foi dado, há pouco mais de dois anos em Macau, pela minha prima Maria João (euzinha), que o recebera ainda em Moçambique das mãos da nossa querida Avó – Alice Carmo - se não foram, naturalmente, o ponto de partida de uma colecção que ultrapassa já os 6000 exemplares, constituem ainda as suas mais relevantes e valiosas referências.” Aqui a avó ainda assina Alice Silva
E assim se reunem na Beira a Alda, a Alice e a Isaura.
À Merita, a mais nova das quatro irmãs, o destino reservou a mais terrível das sortes. Casou com um alegre e atencioso "bon vivant" arrependido das folias mas não suficientemente honesto e informado para proteger a mulher com quem casara de contrair a sífilis e morrer sem criar a filha.
Mais uma vez o meu bisavô, ainda que destroçado, fez-se valer da sua autoridade e de alguma perícia e mandou que lhe tirassem a filha, a Daniela, e a escondessem do pai até a fazer embarcar com as tias Alice e Isaura, numa altura em que estavam em gozo de licença no Funchal.
A pequena Daniela seria, na Beira e na vida, a fiel representante da única irmã que não se lhes pudera juntar.
A tia Isaura, uma pessoa muito especial, pouco ou nada se importou de ser apelidada de mãe solteira, e criou a Daniela, sobrinha e afilhada, como se dela fosse.
É assim que, naquela quente e pacata mas muito alegre cidade e com a Daniela para criar, a tia Isaura conhece o Quintino nas tardes do Grémio.
O enamorado jovem logo se dispõe a oferecer à pequena órfã os melhores colégios na Suíça e à Isaura casamento. Casam-se já o meu pai era rapazote e, sabe-se lá porquê, a Daniela continua mais tarde os estudos na “Suíça madeirense" onde tira o mesmo curso das tias, professora primária.
O Quintino era um sujeito muito “bem”, digníssimo funcionário da Caixa de Emissão onde era secretário-tesoureiro, sempre engomado, lavado e dono de outras tantas manias que faziam as delícias do meu pai e das irmãs quando ia a casa da minha avó para lhes namorar a tia. Eu própria me lembro dele dono de umas enormes orelhas e mãos, impecavelmente esfregadas, bengala aprumada com incrustações de prata e marfim, fato bem vincado e camisas imaculadamente brancas com papillon e suspensórios. O que eu não sabia, antes de mo contar a minha tia, era que ele usava avental maçon igualmente engomado e de brancura resplandecente, eles tinham-no visto! (ao avental com o triângulo e o compasso, o pedreiro e o arquitecto, sem lugar para Deus) mas, como crianças que eram, tiveram de jurar segredo. Ele era todo segredo e secretos mas seria bom marido pois a morte leva o casal, já muito velhos, um atrás do outro. A tia Isaura e ele tinham aprendido a viver um do outro e assim se foram também, um após o outro, sem resistência.
Com a chegada das jovens professoras as tardes na Beira passam a ser bem mais animadas para o avô João. Tornara-se amigo do casal Bazenga e iria poder finalmente ter, para as reuniões dançantes do Grémio em frente à Catedral, a companhia da jovem e alegre cunhada Isaura.
O meu avô é o 3º a contar da esquerda e a Isaura a 2ª na mesma ordem...com umas "atrevidas" mangas curtas e uma grande flor ao peito ..."projecto" da minha avó em tecido chiffon (?) cor-de-rosa.
Deliciava-se depois, repondo as calorias perdidas, com o doce de goiaba e outros nutritivos mimos da Alice que preferia ficar em casa a prepará-los para deleite do Carmo (assim lho apresentaram e assim o tratou toda a vida).
É com este homem maravilhoso que a Alice, sem se aperceber, vai sendo feliz. Ela que nos achava seres submissos e sem direitos e que contrariava e condenava a sociedade que estava programada para ser favorável apenas aos homens irritava-se com as atitudes do meu avô Falcão, verdadeiro macho latino, e entre golinhos de chá ia dizendo à minha avó materna:
- Sr.ª D. Joaquina fazia-lhe bem andar a pé. Parece impossível “agachar-se” assim à vontade do seu marido. Ora o Sr. Falcão! Parece impossível! Havia de ser comigo! Nunca o Carmo me proibiu de fazer o que quer que fosse! – e dava uma alegre gargalhada só de imaginar o “senhor liberal” transformado num tirano.
O meu avô Falcão era um homem dificil, o "tirano" da familia, mas tinha uma razão para ser assim. O avô Carmo era o oposto, segundo me garantem o meu pai e as irmãs, era uma pessoa que não pertencia à época.
O meu avô Carmo morre, em 1949, em Lisboa na rua Tenente Ferreira Durão, n.º 1 Campo d´Ourique. Não houve tecnologias nem engenhos que lhe valessem e só mesmo muita dedicação e entrega da Alice lhe prolongariam a vida e diminuiriam o sofrimento. O meu pai contou-me que nessa altura só tinha uma muda de roupa e um par de sapatos que de tão gastos, por amor ao pai, se "adivinhava" apenas a existência das solas, por dentro eram forrados com jornal para evitar que os pés sentissem o chão frio ou se molhassem ao tocá-lo. De noite a camisa era lavada e posta a secar e quando estava quase seca era posta debaixo do colchão, meticulosamente dobrada, para ficar logo “passada a ferro”, o mesmo se passava com as calças que enquanto a avó cozia ia dizendo "remenda o teu pano que te chega ao ano...toca a remendar que te torna a chegar. Foi o primeiro provérbio que me ensinaram.
Mas apesar das dificuldades da época e dos “apertos” da doença e dos finais da guerra, o meu avô teve sempre morfina, o milagroso veneno que lhe esqueceria as dores do fim.
Acabados os "fins" das minhas ternas referências, destes "heróis da terra", regressarei ao princípio. O princípio destes amados caminhantes que sentados nas nuvens pacientemente aguardam os próximos capítulos.
Construiu as casas mais lindas da Ponta Gea, viveu rodeado de verde e muito espaço, amou, sonhou, dançou e acabou confinado ao espaço entre o quarto acanhado e uma varanda, esta na rua Tenente Ferreira Durão em Campo de Ourique, morre 3 dias depois desta foto ter sido tirada no dia 13 de Julho de 1949.
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