quarta-feira, 4 de março de 2009

Casas de amor...coisas da terra...para quem gosta de terra!!!










casa grande 1929










casa pequena 1921











casa pequena 1954

Entre as mais belas das belas estavam a “Casa grande” e a “Casa pequena” como nós sempre lhes chamámos para as distinguir.

Professora de vocação, coração e alma as aulas da minha avó Alice eram um sucesso e corriam bem até o Director da escola lhe instaurar uma sindicância. O Senhor Director, o Dr. Canhão, que em discórdia de métodos a tenta afastar de exercer na escola Eduardo Vilaça. Diria ele que o sotaque madeirense não permitia o bom desempenho das funções da mestra e consequentemente o bom aproveitamento dos alunos.

É nesta altura e por este motivo que o meu avô manda construir em frente à vila Alda, residência dos meus tios Bazengas, a casa Grande. A casa erguia-se no seu porte majestoso e era a maior e a mais alta da Ponta Gea. Numa das entradas lia-se Vila Alice e na outra Escola Infante Sagres e no interior leu-se felicidade durante quase meio século. No telhado o avô ergueu um mirante para poder trabalhar sobrevoando o olhar na Ponta Gea. O pequeno atelier tinha três portas, duas para o telhado ala este e oeste e uma para a escada em caracol que o transportava “à Terra” para as refeições. Por cima do estirador, à laia de “obra-prima”, os telhados da Ponta Gea recortavam, em quentes vermelhos vários, aquele pedaço de céu azul, límpido e único ... o único céu que eu conheci de renda vermelha aos bicos....a renda desenhada pelo meu avô sentado ao estirador! No mirante,as janelas aos quadradinhos, ao reflectirem a luz, mais pareciam um anel de brilhantes, e quando se abriam aquelas janelas assim tão perto do céu imediatamente na minha face deslizava um sorriso tranquilo para receber, de olhos fechados, as carícias brilhantes do sol … e aquele cheirinho a mar que me invadia os sentidos e retocava a alma … eram momentos de deliciosas eternidades.

A vista era magnífica sobre o casario e o mar e o alcance infinito….infinito de prazer que aquela planície morna à “beira-Índico” nos dava.

A casa foi uma terna e apaixonada oferta do meu avô para a Alice poder leccionar à sua vontade com ou sem sotaque. O avô sabia que o amor e a alegria de ensinar eram bem mais sonantes que a pronuncia “afrancesada” da avó. Foi ele que projectou, também apaixonadamente, a Casa pequena que estaria pronta para recebê-los recém-casados em 1921. Qual pássaro de volta do ninho assim era o Carmo de roda da casa. Construída ao gosto dele e às necessidades da Alice, com as belas varandas abertas de arcadas, um jardim relvado e uma goiabeira por ela plantada para dar sombra e aroma a quem por ali andasse quando crescesse....eu incluida!




projecto do avô para a casa pequena 1920

Tudo, naquela enorme varanda, se proporcionava para tomar chá, bordar e conversar. Sobre a fresca mobília de verga o serviço de chá japonês, encomendado no Ramchand, assentava a sua imponência oriental sobre as toalhas bordadas pela avó. Os magníficos e elaborados desenhos eram reproduzidos, das mais chiques revistas estrangeiras, francesas na sua maioria, pela mão do avô.

um desenho feito pelo avô para um lençol

- Carmo como eu sei que gostas de estar ao estirador – e ele que até estava ao fresco no jardim ! – vê este desenho, não te importas de mo passar? Logo ele, sem sacrifício, se levantava.
- Vamos, vem também para veres se fica como queres, é para quem?
- Para a Virgínia, vou mudar-lhe a gola do vestido azul, achei esta bonita que achas? Vou fazer um cházinho para os dois enquanto fazes isso. – o hábito do chá ficou e até ao fim, todos os dias eles tomavam um chá juntos e brindavam com ele fazendo tilintar a cumplicidade na porcelana.

Sobre os abertos e fechados do ajour, do crivo, do filet ou richelieu da Madeira poisavam os scones, os bolinhos de coco e as taças de compotas. O bolo de mel e o doce de gila eram o casal real e o séquito de biscoitos em pratinhos perfilados não se repetiam, bolinhos de menina, rebuçados de ovos, broas, rosquilhas, chous à la creme e pirâmides acrescentavam colorido à brancura da toalha.


A batedeira da avó

Para quem não gostasse de chá havia sempre um giripiti, de ginga, casca de laranja ou maracujá, que ela tão divina e pacientemente preparava com tempo desde a infusão ao filtro.

Ficava completa, a visão do perfeito quando, com a participação activa do Carmo, ele que já escolhera os desenhos decalcara-os ou reproduzira-os directa, firme e fielmente em papel vegetal, se decoravam as mesas e a casa.

A casa que erguera em 1921 era a mesma que agora, em 1934, esvaziavam para regressarem a Lisboa como era necessário à continuação dos estudos dos miúdos.

- Ó “rapaiz” enche as latas de terra até ao meio - dizia a Alice, agora com 40 anos dirigindo-se ao pequenino, enquanto embalavam as coisas para virem para Portugal.

- Vais levar também a terra Alice? - brincava o meu avô provocando-a pois sabia que o momento era difícil também para ela.

- Não queiras saber tanto como eu Carmo. Espera e “veráis”.

A tesoura de podar da avó

Os ramos da jovem goiabeira agitavam-se em acenos nervosos num prenúncio de chuva ou de despedida. Os frutos do pequeno pomar tinham sido já colhidos e alinhavam-se para serem distribuídos pelos que ficavam. Os fetos estavam enormes, verdejantes e viçosos, e eram o orgulho da avó e a cobiça de quem por lá passava. À laia de despedida e com muito sentido de oportunidade “enlatou-os” e vendeu-os a uma libra cada e fez um valente “pé-de-meia” na altura.
- Ouve e adivinha o que é Alice - de mão no bolso pesado o meu avô fazia-a ouvir o ordenado das Obras Públicas que tinha recebido em libras “sonoras”.

- Já? Venham as libras! e rematava com uma alegre gargalhada – vou juntá-las com as minhas…….vendi os fetos.

- As tuas ……? Vendeste os fetos? – perguntava entre admirado e divertido – Então pega já nestas também pode ser que faças outro milagre.

E foi assim que, à minha avó, lhe assentou o destino como uma luva. Ir para a Beira ajuda-a a vencer o desgosto de amor do garboso e bem falante militar Centeno e a perda da mãe mas a Alice apaixonou-se de novo, desta vez pela terra e pelas casas, e provavelmente pelo grande responsável … o meu avô. Nunca permitiu que se vendessem as casas, como fizeram as irmãs, “são minhas” eu é que decido contrapunha os argumentos dos filhos com a força de uma matriarca!

E as casas foram ficando até novo regresso em 1954, desta vez já com sessenta anos e viúva. Assim naquele ambiente idílico cresceram a Daniela, o meu pai e as irmãs, a Virgínia e a Manuela até virem para Lisboa estudar em 1934 onde viriam a conhecer a irmã mais velha, filha do primeiro casamento do meu avô, a minha tia Helena.

As casas continuam de pé, acolhem outras famílias e têm uma história para contar a quem as souber ler. Guardam nas paredes, sobreviventes segredos cochichados, sonhos vividos de um tempo que não volta mas que não se esquece porque a saudade dói.

Os meninos que agora por ali correm não terão tanto como os anteriores tiveram e não sentirão o cheiro da cera fresquinha mas têm casa, têm sol, terão sempre mangas, papaias, goiabas e o meu perdão por não saberem desta história.

casa pequena 1989 e os meninos...

2 comentários:

A. disse...

Falcãozinho.... que delicia de história... que delicia de jardim... que delicia de cheiros e cores... que delicia de calor (e num dia tão feio, sabe tão bem...)
Quer maravilhosas recordações... por isso teres sempre tanto para dar... e contar!...

As casas são lindas! as duas... mas, a pequena então, é uma perdição! O alçado desenhado pelo avô Carmo é de uma delicadeza - quanta ternura "desenhada" naquele projecto... para agradar à sua Alice.
Comovente. Muito. Casa cheia. Vida cheia. Coração cheio.

(foi ela que te contou os segredos?...)

Beijo!

e agora... cacarejar e andar!... hehehe...

fal-cão disse...

Se reparares no desenho do projecto da casa pequena o alçado está à esquerda coisa que não acontece quando a casa é construída porque a Alice quis que o Carmo (assim lho apresentaram assim o tratou a vida inteira)mudasse o alçado para a direita e ali seria sempre o quarto dela (DELA!)porque o de casal era interior!!!!...os segredos são nossos morrerão comigo alguns outros virão para os contos ...