quarta-feira, 11 de março de 2009

O Paulo, o Manel e o Inácio

Numa altura em que o racismo não figurava nem nos jornais em tablóides sensacionalistas, nem na minha cidade e muito menos na minha casa e no meu mundo o Manel Tomo, o Paulo e o Inácio faziam parte do meu dia-a-dia como se de outros elementos da família se tratassem.

Até na ausência de sapatos, dentro e fora de casa, éramos cúmplices e aqui eu não resistia a reivindicar quando me mandavam calçar.

- Mas o Manel está descalço!

O Manel foi sempre um prolongamento meu.
Ele chegava mais alto, tinha mais força, trepava às árvores para me colher a fruta melhor, tinha muito “boas ideias” e finalmente adivinhava os meus pensamentos desde quando eu ainda não sabia falar.

Fazia um ano nesse dia.
Começava a cair a noite, a noite dos mais novos, e eu já trajada a rigor, de pijama vestido pela avó, preparava-me para ser "sacrificada" em redobrados desvelos de aniversariante com os beijos de boa-noite.
Sentada numa mesa com o Manel ao meu lado direcciono o olhar para um ponto no chão onde estavam a minha, horrorosamente birrenta, prima de dois anos e os presentes que eu recebera durante o dia. Sou obrigada a desviar a atenção pelo pai que se aproxima para o beijinho e retribuo rápido porque volto a olhar para o chão, depois vem a mãe e faço o mesmo com ela e com a avó que vem de seguida. Todos reparam que quero qualquer coisa e cada um deles vai buscar um brinquedo tentando adivinhar a minha "necessidade"... mas ninguém acerta e a todos recuso, docilmente mas com um ar apreensivo, a oferta.
Entra em cena o Manel que se afasta de mim e volta com um par de meias e uns sapatos minusculos da boneca que estava "descomposta" ao meu lado agarra nela e pacientemente calça-a enquanto eu o observo agora atenta às mãos dele.
Eu e a Conchita, por "aproximação" ao texto. Aqui eu tinha dois anos e a Conchita foi uma "herança" conquistada a "pulso" à minha prima mais velha anos mais tarde...nesta cena apenas estou autorizada a brincar com ela um bocadinho e com muito cuidado na varanda da casa da minha tia.
Quando termina devolve-ma e eu, imediatamente após, estico-lhe os braços e "dou-lhe"colo para de seguida o brindar com um beijo e um rasgado sorriso franzido. Conseguiste! lia-se na expressão. Só ele tinha percebido! Agora sim estava tudo “en su sítio”!...o Manel tinha destas “magias”… o Paulo e o Inácio tinham outras.
E assim foi sempre com o Manel a adivinhar-me os pensamentos até eu ter 12 anos altura em que ele se casou, foi pai e pediu ao “patrão” que lhe arranjasse emprego numa das estações de serviço da empresa onde o meu pai trabalhava.
E como o Manel era o “filho” mais velho do meu pai o desejo foi concedido e ficou a substituí-lo, em nossa casa, o Inácio.
O Inácio, o “pequenino”, eram assim apelidados os mais novos trabalhadores que eram contratados para brincarem com os filhos dos patrões, tinha aparecido ao portão a perguntar

- Precisa "mabassa"?! - A entoação não nos deixava saber se era uma afirmação ou pergunta mas a avó ao vê-lo logo fez o interrogatório necessário e a devida avaliação.
- Como te chamas “rapaiz”? – ternamente já lhe passava a mão na carapinha e lhe levantava o queixo, gesto comum na avó quando chegávamos da escola.
- Inácio sinhóra – timidamente sorria
- Bonito nome tu tens!.... e já o trazia para dentro e simultaneamente garantia-nos que era da região de Sena.
A avó sabia só de olhar… e quando traziam as orelhas cortadas… não os desprezava nem acrescentava o acidente ao curriculum apenas dizia bem alto para que todos ouvíssemos e registássemos na alma.
– Pode lá ser! Que crueldade! ...- referia-se às orelhas cortadas costume tribal que tinha sinónimo de “ladrão”. E acrescentava
- ...e gostas de brincar?
- Sim……"gostas"! – alargava o sorriso ao som alegre do verbo brincar como qualquer criança o faria em manhãs de sol dourado como eram aquelas da cidade onde eu cresci.
- E já comeste? – pergunta crucial para a avó independentemente da idade, do cargo, da cor e do motivo do encontro.
O Inácio foi posto logo à “experiência” a roer uns biscoitos do dia no quintal enquanto o Manel e o Paulo o apadrinhavam e explicavam como era o serviço, os costumes da família e, naquele caso específico, quais as nossas brincadeiras preferidas.
Escusado será dizer que nunca ninguém conseguiu substituir o Manel mas o Inácio foi ficando.

A estação de serviço era no centro da cidade e passara a ser sempre ali que o meu pai, literalmente, atestava o depósito do carro o que me permitia matar as saudades do Manel dando-lhe a mão enquanto o pai enchia o carro e simultaneamente ganhar o meu elogio favorito.
- Minina estás tão crescida!...quase tão grande como Manel!
Ser GRANDE como ele era uma aspiração minha!
- Ó pai deixe-me ficar um bocadinho aqui com o Manel depois vem-me buscar pode ser?
- Não o Manel está a trabalhar não podes ficar aqui a atrapalhar.
- (Atrapalhar! Atrapalhar! Atrapalham-me estes adultos!) desabafo pensado que nunca chegava "audível" ao destino! - Está bem então só vou lá dentro dizer uma coisa ao Manel!
- Despacha-te!
A sós enquanto ele fazia o troco na caixa pedia-lhe.
- Manel quando eu me casar vens para minha casa? Vens, não vens?
- Vou minina – E brindava-me com uma festa na cabeça (aprendida com a avó).

Eu corria de novo para o carro ou a buzina estragava-se!!!!com a pressa do pai e já lá dentro fazia-lhe adeus da janela até o perder de vista e ele retribuía.... só sorrindo se estivesse em pleno "exercício de funções" e acenando se não houvesse fregueses.
Um dia o pai não veio almoçar a casa. Um dia o pai não foi à "estação do Manel" pôr gasolina. Um dia o pai, por insistência minha, disse-me que outras crianças no céu tinham precisado dele!
- E eu? E o Raulito?
- O Raulito – dizia o pai demasiadamente calmo a espaços – é meu afilhado ... e eu prometi ... ao Manel que nunca o deixaria…ao Raulito...ele agora é .... é teu irmão.
- E vem morar aqui?
- A mãe dele não deixa…agora não deixa mas pode ser que um dia…mas eu vou lá vê-lo e ajudo em tudo, sim filha?
- Sim.
Porque não ficou ele quieto quando no turno da noite assaltaram a caixa da estação de serviço? Porque o Manel, sempre fiel e destemido, não foi capaz. Morreu por 500 escudos. Pois tinha perdido um irmão grande e ganhava um pequeno que nem sequer vinha morar connosco .... não era a mesma coisa e chorei sentada com o Kiss, o cão, e a Mercedes no "nosso" canto do quintal, dos meus três adorados companheiros "negros" ... já só tinha estes dois.
Tinha aprendido no colégio que os bons iam para o céu onde existia um Paraíso, um imenso jardim com árvores, rios e lagos e animais.
Haverá mesmo lá árvores e animais (como o "Bambi" que o pai encontrou perdido numa ida não sei onde e esteve no nosso quintal até chegar o dia de ser acolhido no Zoo)?
Negros há de certeza!

O Paulo era o mainato lembro-me dele sobretudo pelo fascínio que me causava quando fazia libertar as chispas em brasa do ferro de engomar ainda a carvão enquanto me dizia:
- Fogi minina João qu’isso dói muinto!
A “magia” dos salpicos da brasa eram, para mim, feitiço do Paulo. Eu vivia a ilusão de ser a assistente de um mágico quando, no quintal, ouvia os estalidos do sal e via os pedacinhos de brasa saírem pelas aberturas laterais do ferro de engomar.
A cidade da Beira era muito quente e húmida e a exposição do ferro à humidade do ar combinavam-se para lhe tirarem o brilho do novo mas devolviam-lhe uma nova beleza .... a cor alaranjada da ferrugem!
A pega vermelha em baquelite era a cereja no topo do bolo que contrastava no brilho e na pureza da cor com a rude textura do ferro.
O Paulo tratava dele com todo o zelo pois o mais pequeno descuido seria um furo na roupa provocado pela “fuga” da brasa. Antes de o usar esfregava-o com palha-de-aço para o alisar e limpar, depois a pequenos intervalos ia soprando as cinzas para longe para não mascarrarem a roupa e o obrigarem ao regresso à bomba de água e ao tanque.

A bomba de água era outro dos meus obstáculos a vencer no quintal e pelo qual, algumas vezes, também comia a sopa toda acreditando que se o fizesse ficaria suficientemente forte para ser capaz de retirar água do poço.
Mas muito mais heróico do que ter de engolir aquela nutritiva água fervente, quando a temperatura ambiente tocava os 30º, ou ser capaz de retirar água do poço era a bravura com que o Paulo “accionava a palma da mão”, o termoestato, testando assim o "mestre" a temperatura do ferro consoante os tecidos que não traziam “manual de instrução”. A temperatura era regulada por ele e o ferro desligava-se “automaticamente”, bastava não soprar a cinza.
O Paulo era também o mestre da "liberdade" pois não trocaria o esvoaçar das cinzas pela prisão de estar condicionado a uns quantos metros de fio eléctrico agarrado a uma parede, era ainda o mestre da organização porque nunca deixava a roupa “crescer” e usava o ferro sempre com luz solar. O Paulo, que morreu velhinho, se renascesse decerto regressaria ao carvão!


A bomba de água, muito semelhante à que existia no quintal da casa pequena.
Arquivo fotográfico da Companhia de Moçambique – Torre do Tombo

Desenrugar a roupa não era o único objectivo da tarefa de engomar.
A par da figura elegante que se criava “engomadinho” existia também a necessidade de proteger a pele, de insectos e parasitas, e por isso não se usava a roupa logo depois de sair das cordas, era tão necessário como a toma semanal de Daraprin que na altura substituía o quinino na prevenção da malária. Lavar o quintal com creolina e o camião que fazia espargir o Flit pelas ruas da cidade, ao cair da noite, eram outros preventivos diários e indispensáveis pois o perigo das picadelas espreitava quando o sol se punha, hora fresquinha que a fêmea escolhia para "atacar".
E é por isso a minha infância tem cheiros, alguns que agora relembro na terebintina dos óleos, através dos quais eu identificava a hora do dia sem precisar de relógio.
A cera e a creolina indicavam o fim do pequeno-almoço.
O Flit e as queimadas anunciavam o entardecer.
A erva cortada garantia ser sábado.

…e o carvão a aquecer…era o Paulo com tempo para as histórias diferentes que eu, sentada no degrau do meio das escadas para o quintal, ouvia atentamente de mãos em concha a segurar o queixo...não fosse a boca abrir-se de pasmo.


O Paulo à esquerda, o Manuel e o pequenino Inácio

5 comentários:

A. disse...

Falcãozinho....

... que delicia... que ternura... as tuas histórias deixam-me sem palavras... mas não, sem umas lagrimitas e sorrisos!
"Eu corria de novo para o carro ou a buzina estragava-se!!!!" Claro que, neste ponto, foi mesmo uma valente gargalhada!!! hehehe...

BEIJO!

(começo a achar que tens que ter cuidado com estes teus episódios... não vá alguém apropriar-se deles... são, simplesmente fascinantes!)

fal-cão disse...

Achas?! Ficam com as palavras porque o resto é meu! ... mas é bom ler-te

fal-cão disse...

Eu já sou vaidosa e com esses elogios então qq dia ninguem me aguenta!

A. disse...

Aguenta!.. aguenta!..

Cardenal Farenas disse...

Falcao qué ternura de historia. Maravillosamente relatada, con los tiempos y los detalles abundantes para darnos tiempo de tomar aire para continuar atrapados en esta lectura que desde el principio no quise que tuviera fin. Me hiciste emocionar, buscar a mis amigos de Estoril que los quise más de los que mis tres años me lo permitían y que hoy, cincuenta y tantos años después, sigo extrañándolos.

Con ellos descubrí que había camas litera (de dos pisos) el primer día que fui a visitarlos yo sólo, ya que vivían a unas cuadras de nuestra casa y era mi primera aventura fuera de casa. No había misterios, eran mis amigos, los quería y quise visitarlos. Mis padres no entendieron eso y recuerdo que me castigaron por haber salido sin un grande conmigo, que os peligros, que os autos, que el tren que pasaba a unas pocas calles y para rematar... no quisieron comprarme una cama de dos pisos!!!

Amiga, tienes un don para escribir pero más lindo Falcao, es conformar que tienes un corazón tan grande como la luna, que atesoras tus recuerdos con la misma firmeza y temple que tenías cuando tu meta era crecer a la altura de Manel, con la ternura y el cariño que transmites en cada una de tus frases, que hacen de este relato de lo más hermoso que haya leído en mucho tiempo.

Gracias amiga, por hacernos partícipes de tu historia. A propósito, qué linda foto la que pusiste. Ya te vi la cara!! jeje

Y ya que estoy en los agradecimientos, quiero darte un millón de gracias por todo el apoyo y la compañía que nos regalaste durante el proyecto del libro de Sandra. No podremos olvidarlo nunca. estuviste con nosotros todo el tiempo, animándonos y con los más bellos deseos. Gracias!!! Eres una maravillosa persona y lo más lindo es que... podemos decirle a todos que eres amiga nuestra.

Bendiciones con abrazos y una que otra lágrima y sonrisas, que se me escaparon mientras leía esta preciosa entrada.